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Resumo
Sexo
é o assunto mais popular em qualquer tipo de mídia e com a Internet
não seria diferente. Mas a rede trouxe também facilidade para a
circulação da pornografia. Mas o que pornografia? É um meio de
expressão que tem sua liberdade garantida como outro qualquer, desde
que não seja ou não se torne ilegal. A pedofilia é o fato mais
preocupante. Não se pode reduzir a pedofilia ao ato em si, nem
tampouco se esquecer da dimensão penal do fato, por causa da
violência praticada. O pedófilo precisa de médico, não de cadeia.
Entretanto, aquele que simplesmente troca fotos de pornografia
infantil pela Internet não deve ser tratado da mesma maneira daquele
que abusa e explora sexualmente a criança. O art. 241 da lei 8069/90
(Estatuto da criança e do Adolescente) iguala duas condutas
distintas. A conduta de fotografar é mais grave, pois pressupõe a
exploração sexual do menor, a realização efetiva do ato para
produção do material, enquanto que publicar consiste em
disponibilizar algo já realizado. Nem sempre quem publica é o mesmo
que fotografa. Na maior parte das vezes, aquele que publica ou
transaciona fotos utiliza material produzido por terceiros.
Palavras-chave:
Pornografia.
Internet.
Sexo. Abuso Sexual. Pedofilia. Crime. Estatuto
da Criança e Adolescente.
Abstract
Sex
is the most popular subject in any kind of media, and with Internet
it wouldn’t be diferent. So,
the Net become very easy the circulation of pornography. But, what is
pornography? It’s a free way of expression, since it doesn’t be
or become ilegal. The
pedophilia is the most worrying fact. We
can’t reduce pedophilia to the conduct itself, nor forget the
penalty for that, because the violence was practice. The pedophile
needs a doctor, not the jail. The Act 8069/90, in the article 241,
considers equal the actions of to photograph and to publish. However,
the first is more dangerous than the second, because the sexual abuse
happens in the production of the pornographic material, when occurs
the efective damage to the child, while who publish just use what was
already done by others. Who published isn’t necessarily the same
who produced the material, took the pictures.
Keywords:
Pornography.
Internet. Sex. Sexual abuse. Pedophilia. Crime. Act 8069/90.
SUMÁRIO: 1)
Sexo. 2) Pornografia. 3) Pornografia Infantil e Pedofilia. Conclusão
1)
Sexo
Sexo é o
assunto mais popular não só na Internet, mas em todo tipo de mídia.
Em novembro de 2000, uma decisão judicial proibiu a participação
de menores de idade na novela “Laços de Família” da Rede Globo
de Televisão por causa das cenas de sexo e violência (WERNECK,
2000) (COMIM, 2000).
Segundo
Carlos Eduardo Novaes e César Lobo, a sociedade, como forma de
controlar o desejo sexual, algo instintivo e biológico, foi
deslocando o sexo do plano natural para o cultural, submetendo-o às
regras e governos. Essa passagem para o plano cultural se deu com a
proibição do incesto. A condenação do sexo veio com a Igreja, que
evoluiu da total proibição, por causa do pecado original de Adão e
Eva, à permissão desde que fosse heterossexual e orientado para
reprodução. Enquanto no Ocidente ocorre a repressão da Igreja, nas
culturas orientais, como China e Índia, o sexo é considerado o
caminho para o paraíso (NOVAES; LOBO, 1997).
Ainda
segundo os autores, o sexo sai da clandestinidade no século XX, com
Freud e a psicanálise. Passamos da “moral vitoriana” para a
liberdade sexual. Surge o movimento feminista, a pílula e a
consciência da independência sexual que a mulher passa a ter. Toda
essa revolução sexual encontra um grande obstáculo na década de
oitenta com o surgimento da AIDS.
Entretanto,
o surgimento dessa nova e mortal doença não tornou o comportamento
sexual precavido e ajustado aos novos tempos. Estudos recentes
mostram que no Brasil aumentou o número de casos de doenças
sexualmente transmissíveis, não apenas AIDS, mas doenças cuja cura
é conhecida a mais de cinqüenta anos, como sífilis e gonorréia.
2)
Pornografia
A indústria
da pornografia, também chamada de “entretenimento adulto”,
movimenta milhões em todo o mundo. Chega a ser uma indústria mais
lucrativa que tráfico de drogas e de armas. Não apenas com
profissionais estabelecidos, mas também com amadores, que se
utilizam das facilidades proporcionadas pelas novas tecnologias.
Walter
Maierovitch (MAIEROVITCH, 2002) mostra dados que impressionam. Nos
Estados Unidos, na classe média, trezentos mil menores de dezoito
anos se prostituem para satisfação do impulso consumista: comprar
roupas de grife, carros, telefone celular, etc. O preço médio de
cada programa sai por oitenta dólares e o cliente acaba virando
freguês fixo ou um multiplicador que espalha aos amigos os detalhes,
fornecendo o telefone para contato. Muitas jovens prostitutas nos
Estados Unidos chegam a ganhar de quinhentos a seiscentos dólares
por noite, sendo que as clandestinas ficam com vinte e cinco e as
demais com não mais que cem dólares, segundo dados da ECPAT (End
Child Prostitution in Asia Tourism, organização
não-governamental criada em 1991 na Tailândia). A maior parte do
dinheiro fica com o crime organizado que garante o ponto, a freguesia
e dá proteção. Segundo o autor, a miséria, a fome e a falência
do modelo econômico neoliberal alavancaram esse mercado. Estima-se
com a pedofilia, uma das vertentes de exploração sexual, um
faturamento de cinco bilhões de dólares por ano, sem contar o lucro
com fotos, Internet e revistas. Só o mercado de vídeo de pedofilia
gera-se anualmente 280 milhões de dólares. Na Internet estima-se a
exibição de doze milhões de crianças entre dez e doze anos. O
autor explica que na Europa as estatísticas sobre menores vitimados
são separadas em três áreas, entre as quais pode haver
interligação: tráfico (imigração clandestina), trabalho escravo
e desfrutamento sexual (prostituição adulta, infantil e pedofilia).
Cita também recente estudo da ECPAT que mostra um preocupante
crescimento do tráfico de menores do Leste Europeu, para exploração
sexual.
Ana Luísa
Vieira (VIEIRA, 2002) afirma que, segundo a ONU, algumas das razões
da exploração sexual no Brasil, que agora se expande para a
Internet, são pobreza, discriminação, crime organizado, comércio
de drogas. O diferencial do meio eletrônico é a possibilidade de
vigilância e controle, principalmente pela memória dos acessos
guardada pelos provedores nos arquivos log, os quais permitem
o rastreamento de um site.
Pornografia
vem do grego pornographos,
que significa escritos sobre prostitutas, originalmente, referência
à vida, costumes e hábitos das prostitutas e clientes. O Dicionário
Michaelis conceitua pornografia como arte ou literatura obscena,
tratado acerca da prostituição, coleção de pinturas ou gravuras
obscenas, caráter obsceno de uma publicação, devassidão. O
Dicionário Aurélio traz como uma das definições figura,
fotografia, filme, espetáculo, obra literária ou de arte, relativos
a, ou que tratam de coisas ou assuntos obscenos ou licenciosos,
capazes de motivar ou explorar o lado sexual do indivíduo.
De
acordo com Eliane Moraes e Sandra Lapeiz (MORAES; LAPEIZ, 1985) a
pornografia existe desde a Antigüidade. Na Bíblia há várias
passagens, referindo-se principalmente à prostituição. Na Grécia
o sexo era cultuado, principalmente na literatura com temas como
prostituição e incesto. Na pintura e escultura também se encontram
representações de cena eróticas, com destaque ao coito anal e
símbolos fálicos. A homossexualidade era comum entre os gregos.
Dildos – pênis artificiais – eram produto de exportação de
Mileto. No Oriente temos o Kama Sutra,
de Vatsayana, um estudo detalhado o amor e o prazer sexual. No
Império Romano começa o interesse pelas formas mórbidas de prazer,
como o sadismo e a flagelação. Esse interesse pelo castigo físico,
que se estende pela Idade Média, se deve à moral católica, como
forma de reprimir o desejo sexual. Os castigos antes aplicados nas
costas e ombros foram transferidos para partes baixas do corpo, como
as nádegas, por exemplo, por medo que os danos se tornasse
irreversíveis. Acabou se transformando em mais uma forma de prazer.
Segundo
as autoras, a popularização da pornografia se dá com o Marquês de
Sade, pela perversão, devassidão e libertinagem. O principal crime
do Marquês foi o estupro de uma mulher a quem açoitou com um ramo
de árvore, fazendo cortes no corpo dela com um canivete e colocando
cera nas feridas. Há ainda Leopold Von Sacher-Masoch, o Barão
Sacher-Masoch, criador do masoquismo, destacado em seus livros por
causa da atração pela crueldade. No século XIX há uma
disseminação do erotismo, com publicações clandestinas, na moda e
na fotografia, com o destaque dado ao corpo feminino. No século XX,
com o avanço tecnológico – fotografia e cinema no início,
televisão a partir da década de 50 e Internet e meios digitais de
comunicação na de 90 – ocorre uma explosão do erotismo,
principalmente a partir dos anos 60 com a revolução sexual.
Segundo as
autoras:
(...)
A pornografia é consumida. Mesmo sendo produzida para consumo, não
pode ser considerada um produto comum. (...) Ao ser consumida ela
aciona um mecanismo todo particular do ser humano: a fantasia. Apesar
de todo esforço das sociedades de massa em direção à
homogeneização da sexualidade, podemos supor que cada indivíduo
possa se relacionar de modo singular com o material pornográfico.
Essa relação consumidor/produto, ou imaginação
individual/pornografia, se inscreve no universo do proibido, ou mais
especificamente, essa relação vai passar pela forma particular que
cada pessoa tem de digerir as proibições, de transgredir. (...) A
proibição existe para ser violada. Esse é o ponto de partida dessa
reflexão. Por isso, o proibido pressupõe sempre a sua contrapartida
oposta e inseparável: a transgressão. (...) A prática do proibido
só é possível na forma de transgressão e é isso que alimenta e
impulsiona a nossa vida sexual. É isso que vai dar o colorido
singular que nós chamamos de desejo.
A mulher era
considerada na Antigüidade como o símbolo do desejo sexual, mito
reforçado pelo cristianismo, com Eva seduzindo Adão e dando origem
ao pecado original. No século XVIII, com o surgimento da classe
média nasce o mito da mulher como anjo doméstico (BORGES, 2000). A
percepção da mulher como objeto continua até os dias atuais,
difundida através da mídia a qual trata meninas como adultas pelo
culto à beleza física e à sedução, como um produto a ser
consumido (MIGLIACCIO, 2001).
Sobre
pornografia há uma decisão do Supremo Tribunal Federal:
BRASIL,
Supremo Tribunal Federal, Recurso em Mandado de Segurança:
RMS-18534, Segunda Turma, Relator: Ministro Aliomar Baleeiro,
1/10/1968. Obscenidade e pornografia. O direito constitucional
de livre manifestação do pensamento não exclui a punição penal,
nem a repressão administrativa de material impresso, fotografado,
irradiado ou divulgado por qualquer meio, para divulgação
pornográfica ou obscena, nos termos e forma da lei. À falta de
conceito legal do que é pornográfico, obsceno ou contrário aos
bons costumes, a autoridade deverá guiar-se pela consciência de
homem médio de seu tempo, perscrutando os propósitos dos autores do
material suspeito, notadamente a ausência, neles, de qualquer valor
literário, artístico, educacional ou científico que o redima de
seus aspectos mais crus e chocantes. A apreensão de periódicos
obscenos cometida ao Juiz de Menores pela Lei de Imprensa visa à
proteção de crianças e adolescentes contra o que é impróprio à
sua formação moral e psicológica, o que não importa em vedação
absoluta do acesso de adultos que os queiram ler. Nesse sentido, o
Juiz poderá adotar medidas razoáveis que impeçam a venda aos
menores até o limite de idade que julgar conveniente, desses
materiais, ou a consulta dos mesmos por parte deles.
Germaine
Greer (GREER, 2000) diz o seguinte sobre pornografia:
A
pornografia ilícita é a desbravadora. Onde ela vai, a mídia
legítima precisa ir atrás se não quiser deixar para os
inescrupulosos a parte do leão dos lucros, e finalmente, o negócio
todo. Se os filmes cults conseguem gerar, por uma bagatela, o
tipo de interesse da mídia que custa milhões aos filmes normais,
estes vão copiá-los – lenta, mas inevitavelmente. Por mais saliva
que se gaste na questão do que as crianças devem ou não assistir,
o problema real é o que a geração dos pais quer que seja mostrado.
Enquanto houver demanda, a indústria pornô estará ali para
servi-la. Enquanto houver cigarros, as crianças fumarão. Enquanto
papai guardar revistas de mulher pelada e vídeos pornôs na gaveta
das meias, seus rebentos vão vê-los. A idéia de que as crianças
podem existir num mundo e seus pais noutro é uma ilusão. Histórica
e etimologicamente, a pornografia é tão somente a publicidade da
prostituição. Ela é distinta, portanto, da obscenidade.
Obscenidade é a descrição do que não pode ser visto. Alguma
pornografia, mas de modo algum toda, é obscena: boa parte da
obscenidade não é minimamente pornográfica. (...) Boa parte da
pornografia abastece nichos de mercado e é absolutamente irrelevante
para as pessoas cuja sexualidade não foi desviada nessa direção.
As preferências de minorias sexuais são classificadas, em geral,
como parafilias e consideradas anormais; a sociedade permissiva
tendia a aceitar as parafilias como um aspecto essencial da atividade
sexual humana. “Aquilo que ligar você” era o que você estava
autorizado a fazer nos inocentes anos 60, antes de a tampa ser
levantada e termos uma visão da lata de vermes que é a sexualidade
humana. O que os reformadores sexuais dos anos 60 pensavam estar
liberando era o desejo das pessoas de agradarem umas às outras; o
que eles não estavam preparados para enfrentar foi a intensidade da
necessidade que muitas pessoas têm de machucar umas as outras e
inclusive ferir, para chegar mais perto de seu próprio orgasmo
total. (...) Numa sociedade sem liberdade, a maioria das atividades
chamadas consensuais representa a capitulação do que não tem poder
às exigências do poderoso. O poder vem em diversos disfarces, como
dinheiro, status, patriarcalismo e invulnerabilidade emocional. O
propósito da pornografia é despertar desejo na ausência deste,
despertar apetite onde não existe fome (...) Onde existe
necessidade, não é preciso estimular a demanda; onde não existe
qualquer necessidade, uma imagem sedutora terá de ser usada para
criar a demanda. As pessoas que não têm o menor desejo de comer um
pedaço de pão com manteiga porque não estão com fome, podem ser
estimuladas a desejar chocolate se o chocolate lhes for apresentado
como algo mais que comida, como êxtase, exultação e orgasmo. O
chocolate é uma guloseima que engorda, comercializada como se fosse
uma droga; quando os alimentos, de tortas de maçã a queijos
processados, são apresentados como causadores de euforia, é a
experiência da droga apresentada como meio para o bem-estar. O
alimento produzido comercialmente é também falso, quase sempre não
produzidos com as substâncias mencionadas no rótulo, mas com
químicos análogos e aditivos, e incrementados com aditivos
aromáticos e quantidades exageradas de sal e adoçantes. Da mesma
forma, o sexo rápido comercial é falso, divorciado da paixão e da
reprodução. A propaganda de alimentos vende comida de fantasia e a
de sexo, sexo de fantasia. Do mesmo jeito que a publicidade de
fast-food e doces eliminou o apetite de tal forma que ninguém
sabe agora que a fome é o melhor tempero para qualquer comida, a
pornografia eliminou o desejo. O marketing de alimentos nos trouxe
distúrbios alimentares e é bem provável que o marketing do sexo
terá as mesmas conseqüências. Já nos empanturramos ou morremos de
fome por sexo de tal forma que fazer amor virou atividade
substitutiva – fetichista, obsessivo-compulsiva e profundamente sem
graça. (...) A pornografia desencadeia uma reação genital, provoca
excitação e sugere uma descarga iminente; a pornografia é o que
torna o sexo rápido possível, sozinho ou acompanhado. O fast-food é
um meio de neutralizar a fome e, portanto, da intrusão de imagens de
alimentos em outras ocupações mentais. O sexo rápido também
deveria preparar o terreno para um tipo diferente de ação. A
disseminação da pornografia é muito parecida com a ascensão da
batata chips que agora ocupa dois lados inteiros de um corredor do
supermercado local. Agora as fritas vêm temperadas, e também
embebidas de produtos químicos que simulam sabores de camarão,
bacon defumado, molho inglês... (...) As fritas são um excelente
exemplo de alimento que engorda e não alimenta; o sexo virtual, como
a comida virtual, é planejado para deixar o consumidor insatisfeito.
A discussão do que pode ou não ser visto em vídeos e filmes não
têm nada a ver com pornografia e sim com limiares de capacidade de
chocar, que recuam sem parar. (...) Durante quase 70 anos, o
movimento avançou na direção de mostrar mais; o que deveríamos
esperar, mais cedo ou mais tarde, é que o estômago da sociedade
fique virado, já que houve todo tipo de práticas, das brigas de
cães e de galos, saunas gays e sex shops à queima de
livros, prisão de desviados, véus cobrindo mulheres e raspagem da
cabeça de homens. O Taliban não é nenhum fenômeno novo; o que
deveríamos almejar, talvez, seria por uma revolução mais pacífica
e menos cruel, em que as pessoas ficassem longe de espetáculos
indecentes e brutais simplesmente por não ter estômago para eles, e
seus promotores começassem a perder muito dinheiro.
Jimena
Pettinato (PETTINATO, 2001) mostra como funciona a pornografia na
Internet:
Onde
começou esta estória? Qualquer pessoa com uma câmara e uma mente
um pouco perversa pode criar uma imagem para este tipo de site. A
pornografia de amateurs é bastante comum, mas as maiorias dos
sites que tratam estes temas são profissionais. Felizmente para os
que se dedicam a este tipo de negócios, não faltam pessoas que
posem frente a uma câmara e tirem a roupa. Os fotógrafos com
conexões na tradicional indústria sabem onde localizar os modelos
que começam a se apresentar nas páginas Web com a intenção de se
fazerem conhecer para depois serem convocados para filmes ou
revistas. Mas ainda assim é um negócio legítimo, cada modelo deve
ser maior de idade e confirmar aos fotógrafos, os direitos de vender
suas imagens. Nos últimos dois anos, a regulação segura tem-se
convertido numa realidade aceitada, e a maioria dos fotógrafos não
se arrisca a vender seus produtos sem a devida autorização. Uma vez
que o material está pronto deve-se fazê-lo chegar até aquelas
pessoas que desejam publicá-lo on-line. Quando a Rede era algo
recente e desconhecido, muitas pessoas simplesmente escaneavam
fotografias de algumas revistas especiais, ou as apresentações dos
vídeos pornográficos, e depois as publicavam em grupos de debate.
Assim começaram a formar-se os primeiros sites pornográficos com
material copiado de um site a outro. (...) Alguns fotógrafos vendem
diretamente seu material a este tipo de site. Porém geralmente este
processo tem duas partes: Um distribuidor compra pornografia de um
grande número de fontes originais, e depois revende as imagens aos
proprietários dos sites. A maior parte das fotografias são
digitalizadas, escaneadas, e depois armazenadas em CD-ROMs. Cada CD
contém ao redor de 600 imagens e pode ser vendido por diferentes
preços, segundo o tipo do material que seja. (...) Com tanta
pornografia gratuita disponível, os sites pagos devem exibir algo
mais que simples imagens. Os vídeos interativos, as atuações das
celebridades, e imagens de famosas personagens, têm um alto custo de
produção, e ademais pode ser uma diversão não muito produtiva
para os consumidores. Por isto, a maior parte do material pago é
distribuído pelas mesmas companhias que os desenvolvem. (...)
Aproximadamente umas 30 milhões de pessoas por dia entram nos sites
pornográficos, e provavelmente, naqueles que oferecem imagens
gratuitas. De acordo às estatísticas, os sites que oferecem
material gratuito compreendem entre 70 e 80 % do material
pornográfico disponível. Estes sites são os que verdadeiramente
atrapalham aqueles nos quais se deve pagar para obter informação.
Os sites de pornografia gratuita só ganham dinheiro quando um
usuário visita o site do anunciante e realiza uma compra.
Geralmente, um site "premium" partilha entre 30 e 60% de
cada venda com o site ao qual se refere. E ainda que esta cifra lhe
pareça bastante generosa, deve pensar que atualmente é difícil os
sites gratuitos capitalizarem seus acordos. Ainda que o 5 ou o 10%
dos visitantes poderiam clicar sobre um banner, só um ou dois de
cada mil usuários comprará o serviço oferecido. Por isto, os sites
gratuitos utilizam alguns truques para atrair a maioria dos usuários
para que cliquem sobre seus banners e assim possam ganhar dinheiro;
como por exemplo, prometer mais conteúdo gratuito, e exibir mais
anúncios cada vez que um usuário deixar a página. Geralmente, os
usuários não se importam com a utilização de determinados truques
para chamar a atenção, desde que haja suficiente material gratuito
para satisfazer suas necessidades. A última palavra é do usuário,
que realmente decide se o material que encontra nos sites gratuitos
satisfaz todas suas necessidades. De repente, algum dia decide clicar
sobre alguns dos banners dos sites não gratuitos, registrar-se, e
começar a pagar... O conteúdo dos sites pornográficos pagos,
particularmente os vídeos ao vivo e os chats interativos, são
extremamente custosos de produzir, e a maioria dos sites pagos
compram seu material de centenas de fornecedores que o oferecem. Para
poder pagar este material, os sites necessitam não só atrair, mas
também manter a milhares de usuários que contratem seus serviços.
Uma vez que o cliente se registra, é muito importante que se
mantenha sua atenção e sua visita durante alguns meses. Os sites
pornográficos pagos oferecem o mesmo tipo de incentivo, ou seja,
preços mais baratos durante um período determinado de tempo, tratos
especiais, desconto para o registro de algum amigo, etc., igual que
outras empresas que assim o fazem também na base dos registros.
(...) Alguns prometem um mês grátis de acesso, mas finalmente, o
usuário termina pagando. (...).
Carlos
Alberto Di Franco (DI FRANCO, 2001) diz o seguinte sobre Internet e
pornografia:
(...)
Os problemas levantados pelo mau uso da Internet, são infinitamente
menores que os benefícios trazidos por esse fascinante canal de
aproximação dos povos, de democratização dos conhecimentos e de
globalização da solidariedade. Seus desvios não serão resolvidos
por meio de tutelas governamentais. Na verdade, a Internet salienta
uma nova realidade: chegou para todos, sobretudo para a família, a
hora da liberdade e da responsabilidade. Se a família não cumprir o
seu papel, não será o paternalismo do governo que preencherá esse
espaço com a devida competência. Não há regulamento capaz de
suprir a ausência da família. A educação para o exercício da
liberdade é o grande desafio dos nossos dias. Como salientou matéria
do The Economist,
‘ao atingir tantas pessoas, com tanta facilidade, a Internet pode
resultar, ironicamente, em que as pessoas precisem menos dos
governos, à medida que coloca a tecnologia nas mãos de quem a
quiser. Os crivos contra a pornografia não são perfeitos, mas são
menos permeáveis do que os toscos instrumentos brandidos pelos
censores do governo’. A aventura da liberdade, desguarnecida de
ilusórias intervenções do Estado, acabará gerando uma sociedade
mais consciente e amadurecida.
3)
Pornografia Infantil e Pedofilia
A
pornografia é um meio de expressão que tem sua liberdade garantida
como outro qualquer, desde que não se seja ou não se torne ilegal,
como no caso do envolvimento de crianças ou o material ser vendido a
menores.
A
pornografia infantil é a maior preocupação dentro e fora da
Internet, não apenas sobre veiculação de imagens de crianças em
cenas de sexo, mas principalmente a exploração de crianças para
elaboração dessas imagens.
Uma
contradição dos novos tempos: a cultura de massa exalta a
sexualidade infantil enquanto os pedófilos são demonizados (ADAMS,
2002).
A Interpol
define pornografia infantil como a conseqüência da exploração ou
abuso sexual perpetrado contra a criança, podendo ser caracterizado
como qualquer meio de representar ou promover o abuso sexual de uma
criança, inclusive impresso e/ou gravado, focalizando atos sexuais
ou órgãos sexuais de crianças (MAUR, 1999).
Importante a
diferenciação entre a pedofilia e a exploração sexual. Na
pedofilia, o pedófilo seduz a criança para si próprio. Na
exploração, crianças são aliciadas para serem exploradas
sexualmente por terceiros (HAIDAR, 2001).
Hélia
Barbosa (BARBOSA, 1999) define abuso sexual como a utilização para
fins sexuais do corpo de uma criança ou adolescente, por parte de um
adulto, caracterizando-se pelo não consentimento da vítima, que é
coagida física, emocional ou psicologicamente. É uma relação
bilateral para satisfação unilateral do abusador, compreendendo
desde atos libidinosos até o estupro. A autora define ainda
exploração comercial da sexualidade infantil como a prática de
sexo com criança ou adolescente, mediante o comércio de seus corpos
através de meios coercitivos ou persuasivos, caracterizados como
transgressão a seus direitos e à liberdade individual. A exploração
comercial da sexualidade é praticada para oferecer satisfação e
prazer unilateral ao cliente, assim como para proporcionar ganhos
econômicos ao intermediador. É uma atividade sistêmica, triangular
e criminosa.
Patrice
Dunaigre (DUNAIGRE, 1999) define pedofilia como manifestações e
práticas de desejo sexual que alguns adultos desenvolvem em relação
a crianças de ambos os sexos na pré-puberdade. Para o autor, sua
origem está na proibição do incesto e na instituição de um
sistema de parentesco. Esses elementos formam a identidade da criança
dentro de uma estrutura codificada. Com isso a criança passa a ter
um status social específico. O autor destaca o tom usado pela mídia
nas coberturas sobre abuso sexual, nas quais se acusa o agressor
adulto – o pedófilo – e a incompetência e negligência dos
responsáveis pela criança e das autoridades. A vítima – a
criança – fica reduzida a objeto do ato cometido. E a mídia
assume o papel de seu porta-voz. Demoniza-se o agressor ao mesmo
tempo em que se infantiliza a vítima. Mantém-se o estereótipo da
criança inconseqüente, irresponsável, um mero objeto de poder ou
desejo, uma superfície unidimensional sobre a qual pode ser
projetado todo tipo de fantasia.
Ficou famoso
no Brasil um caso de estupro no qual o suposto agressor foi absolvido
no Supremo Tribunal Federal, quando o juiz alegou na sentença que
devido ao acesso que o jovem tem à informação, não haveria mais
meninas de doze anos, mas sim moças. A menina disse no processo que
sabia o que estava fazendo e queria manter relações sexuais com o
suposto agressor.
Sobre o
comportamento pedófilo, Patrice Dunaigre explica que há uma
distinção entre o tipo exclusivo – aquele sexualmente atraído
por crianças – e o não-exclusivo – aquele que também é ativo
com adultos. Esses comportamentos variam do exibicionismo sem contato
físico até atos de penetração, visando ou não às zonas sexuais.
Numa classificação, ainda segundo o mesmo autor, temos a pedofilia
de situação, quando adultos – geralmente com personalidade
patológica – atacam crianças sem necessariamente sentirem atração
sexual por elas. E a forma convencional, a pedofilia preferencial,
que envolve um desvio sexual visando crianças na pré-puberdade
(treze anos ou menos) e é cometido de várias formas, segundo
diversos critérios, entre os quais: preferência sexual, tipo de
violação sexual, estratégias usadas, formas de penetração,
traços de caráter, competências sociais fracas ou fortes, etc.
Segundo
Leandro Sarmatz (SARMATZ, 2002), a OMS define pedofilia como a
ocorrência de práticas sexuais entre um indivíduo maior de
dezesseis anos com uma criança em pré-puberdade (treze anos ou
menos). Para o pedófilo a criança é um objeto, não um parceiro. A
maioria dos pedófilos tem entre 30 e 45 anos, sendo 95% do sexo
masculino. Embora não sejam em sua maioria homossexuais, 71%
preferem meninos. Proteção e dominação constituem os pilares
básicos da pedofilia. Ainda segundo o autor, à medida que
amadurecem, homens procuram pessoas mais jovens por causa de
insegurança psicológicas, inclusive em relação ao tamanho e
desempenho do pênis. O sexo com menores seria a forma de afirmar sua
própria segurança. A psicanálise define pedofilia como uma
perversão sexual, não como doença, mas como uma parafilia.
Gianni Carta
(CARTA, 2001) mostra que a pedofilia é facilitada pela miséria,
turismo sexual e pela Internet, tornando-se uma lucrativa indústria.
Não afeta apenas países pobres como Tailândia, Camboja e Costa
Rica – considerada o paraíso da pedofilia, pois não considera
crime a posse de pornografia infantil – mas também países ricos
como Estados Unidos e Bélgica, os quais, através da cooperação
entre suas polícias, na chamada Operação Catedral, acabaram com
uma das maiores redes internacionais de pedofilia, o clube virtual
Wonderland. Diz o autor:
O
abuso sexual contra crianças é uma das mais lucrativas indústrias
globais. Dados levantados pelo juiz Walter Fanganiello Maierovitch –
e apresentados por ele na Itália, em dezembro de 2000, durante a
convenção da ONU sobre crime organizado transnacional – mostram a
dimensão do mercado internacional da pedofilia. Segundo Maierovitch,
o lucro anual com a pedofilia chega a US$ 5 bilhões. Vídeos
envolvendo crianças rendem um lucro anual de US$ 280 milhões. E,
ainda de acordo com o juiz, no ano passado foram localizados 7750
sites de pedofilia na Internet – 50% deles nos EUA – a previsão
de especialistas é que o número total de sites do gênero deve ser
cerca de dez vezes maiores que esse. “Aproximadamente, 2 milhões
de crianças são cooptadas e escravizadas pelas internacionais
criminosas”, afirma Maierovitch. Como em todos os tipos de
comércio, a indústria da pedofilia existe porque há demanda. E nos
últimos anos, a exploração sexual de menores vem crescendo. Devido
aos preços cada vez mais baixos das passagens aéreas e dos pacotes
turísticos, viajantes pedófilos, em sua maior parte
norte-americanos e europeus, vão com maior freqüência a países na
Ásia, África e América Latina. E com a introdução da Internet, a
rede global de pedófilos ganhou força. Cresceu o fluxo de
informações sobre crianças em diversos países, e também a
comercialização de fotografias e vídeos pornográficos. (...) O
psiquiatra francês Pierre Sabourin diz que o pedófilo, quase sempre
homem, pode ter qualquer idade, orientação sexual, religião e
nacionalidade. Muitas vezes sofreu abuso sexual na infância. Tende a
viver só, a não ter emprego, e tem dificuldade em fazer amizade com
adultos. O que explica o fato de ele se sentir à vontade com
crianças. Segundo o site da Interpol, o pedófilo predador, aquele
que rapta e estupra, é a exceção, não a regra. O mais comum é o
pedófilo que compra pornografia infantil e não realiza suas
fantasias. Forças inibidoras internas, diz ainda a Interpol,
controlam seus impulsos. E forças inibidoras externas (medo de ser
pego, encarcerado, e de ser exposto publicamente) contribuem para que
o pedófilo não moleste crianças. Porém, o tédio e o estresse
podem desencadear um novo ciclo. O pedófilo passa, então, a ir a
lugares públicos, como piscinas, ou parques freqüentados por
crianças. Ele detecta aquelas que lhe parecem mais vulneráveis,
talvez tímidas, e faz contato. Oferece presentes, quem sabe um
passeio de automóvel. As táticas são várias. O processo de
aproximação entre pedófilo e presa pode levar anos. Em certos
casos, nunca haverá contato sexual. Mas, quando e se ocorre o ato
sexual, o pedófilo usa artifícios para que a criança não conte
nada a ninguém: ameaças, favores, sentimento de culpa. (...)
Membros de sofisticados clubes de internautas globais, como o
Wonderland,
que envolveu 13 países e 180 homens, trocaram, até serem
descobertos no início do ano, imagens de 1236 vítimas, todas
menores. Em várias ocasiões, crianças foram estupradas ao vivo,
via Internet. Como combater a pedofilia na Internet? Parcerias como
aquela entre a polícia belga e a americana. Em março, 30 pessoas
que distribuíam imagens pornográficas de crianças foram presas em
Manchester, graças à colaboração entre a polícia e a empresa
privada SurfControl.
O Estatuto
da Criança e do Adolescente determina:
Art.
241 – Fotografar ou publicar cena de sexo explícito ou
pornográfica envolvendo criança ou adolescente: Pena – reclusão
de um a quatro anos.
Sobre essa
conduta há um julgamento do Supremo Tribunal Federal:
BRASIL.
Supremo Tribunal Federal, Habeas Corpus - 76689/PB, Primeira Turma,
Relator: Ministro Sepúlveda Pertence, 22/09/98. “Crime de
Computador“: publicação de cena de sexo infanto-juvenil (E.C.A.,
art. 241), mediante inserção em rede BBS/Internet de computadores,
atribuída a menores: tipicidade: prova pericial necessária à
demonstração da autoria: HC deferido em parte. 1. O tipo cogitado -
na modalidade de “publicar cena de sexo explícito ou pornográfica
envolvendo criança ou adolescente” — ao contrário do que
sucede, por exemplo, aos da Lei de Imprensa, no tocante ao processo
da publicação incriminada é uma norma aberta: basta-lhe à
realização do núcleo da ação punível a idoneidade técnica do
veículo utilizado à difusão da imagem para número indeterminado
de pessoas, que parece indiscutível na inserção de fotos obscenas
em rede BBS/Internet de computador. 2. Não se trata no caso, pois,
de colmatar lacuna da lei incriminadora por analogia: uma vez que se
compreenda na decisão típica da conduta criminada, o meio técnico
empregado para realizá-la pode até ser de invenção posterior à
edição da lei penal: a invenção da pólvora não reclamou
redefinição do homicídio para tornar explícito que nela se
compreendia a morte dada a outrem mediante arma de fogo. 3. Se a
solução da controvérsia de fato sobre a autoria da inserção
incriminada pende de informações técnicas de telemática que ainda
pairam acima do conhecimento do homem comum, impõe-se a realização
de prova pericial.
O Estatuto
foi criado em 1990 quando se pensava apenas em publicação impressa
ou vídeo. Agora com as mídias digitais isto precisa ser revisto
para que não haja dúvida quanto à aplicação do Estatuto.
Organizações não-governamentais e autoridades têm criticado este
artigo por causa da pena muito branda. Mas não é esse o caminho.
Conclusão
É preciso
observar os dois núcleos do tipo previsto no artigo 241 do ECA.
Foram igualadas duas condutas de natureza distinta. Enquanto
fotografar pressupõe a exploração sexual do menor, pois
será a realização efetiva do ato, requerendo toda uma preparação
para a elaboração da fotografia, portanto uma conduta muito mais
grave, publicar consiste apenas em tornar público algo já
realizado, disponibilizar a cena pornográfica. Nem sempre quem
publica é o mesmo que fotografa. Na maior parte das vezes, aquele
que publica ou transaciona fotos utiliza material produzido por
terceiros.
Não se pode
reduzir a conduta pedófila ao ato em si. Deve-se observar todo o
contexto social. Mas também não se pode afastar a dimensão penal,
pois há violência praticada. O pedófilo precisa primeiramente de
tratamento, não de cadeia. Muitas vezes, a prática daquela conduta
para o indivíduo se torna inevitável, irresistível, embora saiba
que seja errado, tenha consciência de seu ato. Há que se pensar em
tornar o tratamento para o pedófilo obrigatório, como já se faz em
alguns países.
O objetivo
deve ser a repressão à produção do material, quando se pratica o
dano efetivo ao menor.
As duas
condutas devem ser reprimidas. Mas o simples aumento de pena não é
a solução. É preciso separar as condutas buscando uma punição
conforme a gravidade de cada ação. Na maioria dos casos são
punidos da mesma forma aquele que abusou para elaboração de fotos e
aquele que apenas transacionou, trocou fotos pela Internet.
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